— Os famosos e os duendes da morte
Nada é o que parece ser. O mar de longe é azul, de perto é verde, por dentro, transparente. Aparentemente, tudo é diferente do que realmente é. Eis então o segredo para não julgar: em vez de olhar o mar de longe, mergulhe."
— Fernanda Mello
— Charles Bukowski
07 de setembro de 2009.
Minhas pernas andam tremulas. Porém, mesmo assim, consigo apoiar alguém em meu braços. Alguém que minha memória agora não consegue recordar. Um, dois, três passos. Em minha frente agora há uma caixa grande em um marrom escuro, a cor do fim. Um caixão. Todo feito em bordas e detalhes delicados. Dentro havia um corpo deitado. Calmo, em paz. Em sua face residia a expressão mais plena que pude ver.
A calmaria estampada em um rosto morto.
Feliz! Morreu feliz…
O moço me indaga tais palavras… O que é felicidades para você?
Cristo! Parece tão fácil responder tal pergunta, mas ao mesmo tempo é tão difícil de achar argumentos que comprovem. Recordo o dia tenebroso que se passou em minha vida. Penso até que felicidade é tudo aquilo que ocorreu antes desse dia cinzento.
Até que penso, repenso… Recordo o moribundo com a face tão calma, como nunca havia visto em vida. Respondo com a maior certeza.
A alegria está na própria morte. Quando a vida deixa as tristezas por terra. Morre-se feliz. A morte é o fim da guerra travada com seu próprio ser. E após uma vida bem vivida, entrega-se a vitória para a tal felicidade. A alma que tanto sofre nessa terra, já não tende mais a residir nesse corpo desgastante.
A morte é a libertação da alma. Agora você se encontra em paz…
G.Schardosim O que é a felicidade para você?
Hipocondria
Ainda tenho medo do nosso chão em alto e baixo relevo. Às vezes, existe muito mais verdade nas coisas em que não acreditamos. Uma vida inteiramente planejada: filosofias, planos de saúde e mapas astrais. Tudo acabará num sopro e, mesmo sabendo, nunca chegaremos ao ponto de acreditar. Eu e você escapamos todos esses anos, por generosas frestas que nos trouxeram ao presente. Somos apenas sobreviventes. O nosso filme roda repleto de chiados, mas ainda estamos ao menos no tempo de ação. Talvez o nosso leve toque de hipocondria seja o alimento indispensável para seguir.
É aí que você me canta uma música. E continuará cantando até que ela faça seu estômago embrulhar. Inevitavelmente estarei com você. Poderíamos demolir um ao outro, ou afogarmos a mente no fútil. Mas os pesarosos, esses apenas resistem. Fadados a enxergar tudo, sem exclamações, apenas resistem. E, por enxergarmos, fatalmente viveremos
uma vida com olhos marejados.
— Esse cara não sou eu, Adriano C.


