Cinzas ao Vento

"Está chovendo dentro dela. Quase um temporal."

"Naquela cidade cada um sonhava em segredo. O menino sem nome conheceu a garota sem pernas. Ela não tinha pernas, mas mesmo assim não precisava de ninguém pra ir embora. E eles tentaram. A garota sem pernas mostrou a ele o mundo como conhecia. Ele, que não tinha nome, embarcou, como quem nunca mais quer voltar. Por um tempo, olharam para a mesma direção. Ela nunca lhe deu um nome. Ele nunca lhe trouxe as pernas. O que pra um era sina para outro era mistério. Eles poderiam andar juntos sobre o mesmo trilho, mas nunca seriam esmagados pelo mesmo trem."

Os famosos e os duendes da morte







"Fez-se mar.
Nada é o que parece ser. O mar de longe é azul, de perto é verde, por dentro, transparente. Aparentemente, tudo é diferente do que realmente é. Eis então o segredo para não julgar: em vez de olhar o mar de longe, mergulhe."









"E a receita é uma só: fazer as pazes com você mesmo, diminuir a expectativa e entender que felicidade não é ter. É ser."

Fernanda Mello



"Eu nunca fiquei solitário. Já estive numa sala – Já me senti suicida. Já fiquei deprimido. Já estive muito mal – pior que tudo – mas nunca pensei que uma pessoa poderia entrar naquela sala e curar tudo que estava me incomodando… ou que qualquer número de pessoas poderiam entrar naquela sala. Em outras palavras, a solidão é algo que nunca me chateou por que eu sempre tive essa terrível vontade, esse quê que me fazia estar só sempre. É estando numa festa ou num estádio lotado de pessoas torcendo para algo que eu posso sentir a solidão. Vou citar Ibsen: “Os homens mais fortes são os mais solitários”. Eu nunca pensei “Bom, alguma loira linda vai entrar aqui e foder comigo, acariciar minhas bolas, e eu vou me sentir bem”. Não, isso não irá ajudar. Você conhece a típica multidão que diz “Uau, é sexta à noite, o que você irá fazer? Só ficar aí sentado?” Bem, sim. Por que não há nada lá fora. É estupidez. Pessoas estúpidas se misturando com pessoas estúpidas. Deixem elas se tornarem cada vez mais estúpidas. Eu nunca fiquei incomodado com a ansiedade e a pressa de sair pela noite a fora. Eu me escondia em bares por que não queria me esconder em fábricas. Isso é tudo. Sinto pelos milhões, mas eu nunca me senti solitário. Eu gosto de mim mesmo. Eu sou a melhor forma de entretenimento que eu tenho."

Charles Bukowski



07 de setembro de 2009.

Minhas pernas andam tremulas. Porém, mesmo assim, consigo apoiar alguém em meu braços. Alguém que minha memória agora não consegue recordar. Um, dois, três passos. Em minha frente agora há uma caixa grande em um marrom escuro, a cor do fim. Um caixão. Todo feito em bordas e detalhes delicados. Dentro havia um corpo deitado. Calmo, em paz. Em sua face residia a expressão mais plena que pude ver. 

A calmaria estampada em um rosto morto. 

Feliz! Morreu feliz…

O moço me indaga tais palavras… O que é felicidades para você?

Cristo! Parece tão fácil responder tal pergunta, mas ao mesmo tempo é tão difícil de achar argumentos que comprovem. Recordo o dia tenebroso que se passou em minha vida. Penso até que felicidade é tudo aquilo que ocorreu antes desse dia cinzento.

Até que penso, repenso… Recordo o moribundo com a face tão calma, como nunca havia visto em vida. Respondo com a maior certeza.

A alegria está na própria morte. Quando a vida deixa as tristezas por terra. Morre-se feliz. A morte é o fim da guerra travada com seu próprio ser. E após uma vida bem vivida, entrega-se a vitória para a tal felicidade. A alma que tanto sofre nessa terra, já não tende mais a residir nesse corpo desgastante. 

A morte é a libertação da alma. Agora você se encontra em paz…

G.Schardosim O que é a felicidade para você?





Hipocondria

  Ainda tenho medo do nosso chão em alto e baixo relevo. Às vezes, existe muito mais verdade nas coisas em que não acreditamos. Uma vida inteiramente planejada: filosofias, planos de saúde e mapas astrais. Tudo acabará num sopro e, mesmo sabendo, nunca chegaremos ao ponto de acreditar. Eu e você escapamos todos esses anos, por generosas frestas que nos trouxeram ao presente. Somos apenas sobreviventes. O nosso filme roda repleto de chiados, mas ainda estamos ao menos no tempo de ação. Talvez o nosso leve toque de hipocondria seja o alimento indispensável para seguir.

     É aí que você me canta uma música. E continuará cantando até que ela faça seu estômago embrulhar. Inevitavelmente estarei com você. Poderíamos demolir um ao outro, ou afogarmos a mente no fútil. Mas os pesarosos, esses apenas resistem. Fadados a enxergar tudo, sem exclamações, apenas resistem. E, por enxergarmos, fatalmente viveremos

     uma vida com olhos marejados.

—  Mariane Cardoso



"Eu não assisto programas, não me sento no sofá com frequência, meus amigos não me visitam e eu uso óculos de grau. As pessoas dizem que não saio de casa, que eu sou louco, mas a maioria nem fala comigo. Sem ter a certeza de que viverei amanhã, eu me contento com os sonhos que carrego. Semana passada mataram um homem, um cachorro latiu enquanto eu caminhava em silêncio, e meu tio dirigia um carro longe daqui. Eu odeio o sol, o calor e o suor. Nasci no inverno, e sempre preferi os edredons. Eu não sei falar ao celular e andar ao mesmo tempo, eu acho que existem dragões em meu guarda-roupa, e sempre brinquei debaixo do chuveiro. Eu não me engano, mas me contorno. Sempre quis ser um guerreiro medieval. Às vezes prefiro o campo, mas outras quero no rosto a garoa do céu acinzentado de uma metrópole que cresce descontroladamente. O meu perfume é doce e todo mundo reclama que eu passo demais. Até mesmo quando eu não passo. Ninguém desvenda o mistério nos meus olhos, ninguém olha neles. Eu sorrio fácil, algumas pessoas têm o dom de me fazer sentir um aconchego apenas por estar perto. Eu coleciono coisas que roubei dos meus amigos. E tenho dor de cabeça com frequência. Tudo que eu toco, quebra. Eu nunca tive sorte. Eu sou engraçado, até mesmo quando sério, pois mordo a língua como um leão pra passar a raiva. As pessoas me convidam, mas eu nunca apareço. Ninguém sabe por onde eu ando, nem o que comi no almoço. Esperam que eu ajude em algo que não sei dar nome. A verdade é que as pessoas não me conhecem, não sabem a cor do meu cabelo, nem porque eu comprei um chinelo novo. A verdade é que elas precisam de alguém além delas mesmas, além da imagem fétida que veem no espelho do quarto, além da bailarina que dança na caixa de música. A verdade é que esse cara não sou eu. Eu não tenho esse costume de dançar a música dos outros, e nada tenho comigo, além de um cachorro que dorme em minha cama. Esse casaco não é meu, não fui eu quem dirigiu até aqui. Eu faço parte do sereno, mas não sou o orvalho. Os emaranhados do meu cabelo são como nós, porque eu nunca me importei com isso. Eu não sou o que conhecem, eu vou além do suco de morango e da bendita preguiça de fazer compras. Eu não sou Eu."

Esse cara não sou eu, Adriano C.




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